Quanto se deve ao ventre fatigado?
Quanto se paga ao vento por soprar?
Pão de centeio no tempo fatiado
Dívida eterna
Paga no eternizar.
André Vargas
segunda-feira, 2 de julho de 2012
Sem que eu soubesse que existia
O amor, chegou tão cedo ao meu coração,
que a boneca nem teve tempo de ser usada.
Meu brinquedo era o lápis, parceiro fiel que não me abandonava.
E não fora muito tempo, para trupe aumentar.
Bastasse um motivo meu para desaguar,
que surgia o papel e a borracha
para o grupo aumentar.
Éramos quase que os três mosqueteiros e d'artanhan.
Desbravando por meio a floresta ou linhas,
até o amanhã.
Até que dessas escritas,
conheci algo que nao sabia que existia.
A forma pela qual eu escrevia,
os adultos chamavam de poesia.
E foi tão belo saber que eu poetisava o que doía!
o que era escuro
um pouco frio e oculto
o que a ninguém cabia, só a mim.
Me senti uma artista!
E fui escrevendo desde então.
Tudo que me preenchia.
Desde sonhos, desde dores
desde desejos e aqueles amores.
Para uma criança que enjoa da boneca,
privilégio foi cedo descobrir
que podia brincar de ser poeta.
E fazer dessa brincadeira
uma secreta libertação.
Queria que soubessem
que poetisar o mundo
fez com que eu me entendesse
com o amor.
Derrubei os muros que criei em mim
e até fiz o mudo falar com vigor!
Mas é claro que a poesia
não curava o que ainda me doía.
Meus queridos papel e lápis
só traduziam o que eu sentia.
E chegando a esse ponto eu percebia.
que eu acabava de ganhar uma melhor amiga.
Para cada momento que eu vivia,
sendo de dor ou alegria,.
vinha a poesia como companhia
E foi assim que a querida poesia surgiu em mim.
Numa distração qualquer de menina,
o que na alma aluzia,
sem que eu soubesse que existia.
As botas que vão bater
É a última estação para o ser humano. O fim da linha.
Começam as despedidas, os últimos conselhos, as últimas lembranças. Enfim, a
decrepitude! Ponto de partida ou chegada?
É tempo do cheiro de
alfazema vencida, ou será naftalina? Ou ainda uma pomada qualquer, para
remediar assaduras ou a alma já sem cura.
Nos olhos a vida passa embaçada. A TV voltou a ser sem cores
e já nem sei mais o que se passa nela. Chega para meus olhos reconhecerem
pessoas jamais antes vistas. Teimam em me fazer recordar, contam-me sobre
aventuras nunca vivenciadas antes por mim. Será que falam de outro alguém?
Posso jurar que minha vida começou no instante que sai do banheiro e caminhei
até esta cama. De que vida elas falam?
Caminho em passos lentos nesta última estação. A impressão
que dá é que vivi o tempo inteiro só este dia. Já se passou o natal? Já se
passou fevereiro? Já se passou minha vida?
Já não sei onde habito, o que habito e porque ainda habito. Viram-me, me despem, me trocam, me tocam, sem
autorização. Me dão de comer, de beber, me medicam e já nem sei para que servem
os cuidados. Cuidam ou livram-se da culpa? Amam ou apenas seguem os sagrados
mandamentos?
De que adiantou uma vida inteira? De que me adiantaram os
cem anos? De que me serviu tanta prevenção e medo? Para quê todo amor que
senti? E tanto ressentimento acumulado? Se nada tenho deles, além do seu fim.
terça-feira, 26 de junho de 2012
Das escolhas de qualquer homem
Eu escolho ou não escolho
Vivo de escolhas e me encolho
É sempre vida ou morte minhas escolhas
Ou vou de ônibus ou vou de táxi
Ou tomo o elevador ou subo as escadas
Ou como o pão ou a torrada
De manhã até o outro amanhã
As escolhas me sufocam
Ganham vida, me perseguem obstinadas
Ou lavo os cabelos ou coloco a toca
Ou uso preto ou uso branco
Ou tomo o leite frio ou ele quente
Escolher é uma sina
E privilégio do homem
Dois enredos, duas versões
Ou o Aterro ou o túnel
Ou o sim ou o não
Ou o crédito ou o débito
Ou amasso as batatas ou as como fritas
As escolhas fazem peso sobre meus ombros
Levam minhas forças quando rejeitadas
Mal dou conta num só dia
Ou voto ou anulo
Ou desligo o celular ou o coloco para vibrar
Ou seco as lágrimas ou as deixo cair
As escolhas me sufocam
Sugam-me, me levam ao delírio
Meus dilemas diários
Ou leio ou ligo a TV
Ou dou um beijo ou viro para o lado
Ou vivo ou morro
Há sempre uma escolha.
Nathália Godoy
segunda-feira, 18 de junho de 2012
Pingos de pasta
Os meus olhos olham
O olhar de outros olhos...
Veja como é simples atentar que não me sei!
Basta eu escovar os dentes em meu eterno desajeito
E desse jeito
Como um cão raivoso em frente ao espelho
- espumoso e impaciente -
Perceber
Que entre os respingos de pasta suspeitos
Que entre os respingos de pasta suspeitos
Um eu melhor escova os dentes
Perfeitos.
André Vargas
Perfeitos.
André Vargas
domingo, 17 de junho de 2012
domingo, 3 de junho de 2012
No começo, tropeço
Sinto
Ou penso que sinto
O tropeço é começar a sentir
Ou afirmar que se pensa?
Começo a duvidar de mim
Sou ausência
Começo a não saber se penso demais
Nos sentidos
(E se faz diferença)
(E se faz diferença)
Se penso não sinto o que penso
Ou sinto o mesmo que penso,
Tanto faz...
Começo a temer a demência
E a tremida eloquência que traz
"E o que é isso agora?" - digo de mim para comigo
Ora se não sou eu (tantas vezes) outro
Influenciável, roedor de ossos roídos
Querendo saber e descobrindo que é poço - e não "posso"!
Alguns - belos novos francos velhos feios - livros
E me deixo ser um simplório dicotômico
Sentir e pensar seus/meus duelos vivos
Tão vivos, tão fracos, tão frios
Que permaneço
Cômico.
André Vargas
Que permaneço
Cômico.
André Vargas
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